IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Vida Cristã
Rio, 7/10/2007
 

Caminhar nas diferenças – Observações a partir de Lucas 4,16-30 e Isaías 61,1-4 (Milton Schwantes)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 


Diferenças são o que nos marca

A Bíblia não repete o mesmo; é, de verdade, um livro de histórias. E estas variam. Trazem cada uma sua ênfase. Fosse a Bíblia liturgia, seria mais breve e repetitivo. Sendo livro de histórias particulariza e insiste no especifico. Já por isso torna-se difícil alinhavar a Bíblia num só conceito. Afinal, há nela variadas tônicas e tonalidades. Por exemplo, acima eu dizia que histórias são o que marca a Escritura. Pois, não é que até esta caracterização da Bíblia precisa ser revista. Afinal, temos nas Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, uma significativa quantia de textos e de livros de sabedoria. Ora, nos Provérbios não se encontra a história como tema central. Nem mesmo o temos no Cântico dos Cânticos.Neste aspecto, prevalece a variedade e a diferença na Escritura.

Mas, não só se pode falar da diferença na própria Escritura, como por exemplo em seus trechos litúrgicos, em suas narrações, em seus provérbios, em suas cartas, enfim em suas variadas formas de se comunicar conosco. As diferenças estão nos leitores e nas leitoras de hoje. A leitura perfaz diferença. Não considerávamos este aspecto de modo suficiente. Cria-se às vezes que o leitor não teria importância maior, já que o texto era igual para cada leitor, para cada leitora. Não havendo diferença no texto, não poderia haver diferença na interpretação. Pois isso é um equívoco. Cada leitor traz ao texto a si mesmo! Ao ler, a gente tende a se lê! Não lê por assim dizer objetivamente. Pois, cada qual tem sua pergunta, seu interesse, seu enfoque diferente e peculiar. E tudo isso altera e matiza a leitura.

Estes e outras experiências nos levam a ter que considerar, nos dias de hoje, as diferenças como elemento constitutivo da leitura da Bíblia. Nisso, é óbvio que sua leitura fosse a mais aceita e universalmente válida. Mas, nos dias de hoje, já não se nivela nem iguala, sem que também diferencie e garante as variedades.

Ainda assim será necessário enxergar também que na Bíblia há o que a concatene, a torna semelhante. Há tons que voltam na Escritura. Há desejos de concentração. Quero mostrá-lo em dois textos que se complementam e que expressam algo como a consciência da Bíblia. E esta auto-compreensão da Bíblia torna a ela diferente. Esta é, no caso, a questão: ela, a própria Bíblia, narra e celebra experiências que a tornam, a ela, diferente. Por exemplo, nela as pessoas desvalidas e empobrecidas adquirem um lugar que perfaz a diferença da Bíblia em relação a outras historias sagradas ou a mitos religiosos. No caso, a diferença não está intra-Bíblia, mas reside na comparação de conteúdos da Escritura com a de outros textos religiosos. Aí cai em vista que as escrituras cristãs dão destaque a pobres, a perseguidos, sim ao crucificado. Neles reside a diferença, o valor, o encanto.

Dois textos, como dizíamos, expressam muito bem este tipo de diferença: Lucas 4,16-30 e Isaías 61,1-4.

Diferenças que nos salvam

Poderíamos restringir nossos olhos a Lucas 4,18-19. Mas, minha sugestão é a de dar atenção ao conjunto maior de Lucas 4,16-30. Afinal, a leitura das palavras de Isaías e, em seguida a explicação e a atualização, feitas por Jesus em Lucas 4, levam à sua perseguição. Deseja-se matá-lo! Sua dedicação a pobres torna-o merecedor da pena de morte. Ora, tamanho senso de morte também ronda Isaías 61. No exílio ou provavelmente depois dele, a pobreza é extrema. Já nada há nos saquitéis furados, como o expressa Ageu (1,6). Os v.1-4 de Isaías 61 são retomados em Lucas. Mas, Isaías 61 segue após seus v.1-4 um roteiro próprio: exalta Sião e a presença do Senhor Deus em meio a seu povo e comunidade. Convém ficar atento ao todo deste Isaías 61, e reforçar assim o lugar privilegiado que cabe á pessoas empobrecidas e enfraquecidas neste “ano aceitável do Senhor”.

Por aqui também é assim! É o que entre nós se diz, ao escutar trechos como os de Isaías e de Lucas. Não nos são estranhos. São o que se vive. Têm realidade aqui. Têm-na nos tempos de Isaías 61 e, uns cinco séculos depois, nos dias de Jesus; e nada lhes falta de atualidade em nosso meio. Foi deste jeito que a Bíblia ‘veio’ para cá. Nos últimos decênios a fomos descobrindo em nosso chão, na vida e nas esperanças da gente. Dela nos sentimos muito mais próximos do que dos grandes shopping centers que, de tão lindos, nem são nossa realidade. As lutas da Bíblia são-nos mais achegadas. A Bíblia é atual, muito presente, nos corações, nos olhos e nos pés das pessoas, das mulheres, das crianças e dos homens daqui. É uma graça poder viver esta experiência nas terras daqui. A Bíblia está entre nós.

Ao se andar por aqui, neste mundo de desesperados, vêem-se os ‘textos’ vivos nos corpos das pessoas. Ao se escutar a gente sem eira nem beira, ouvem-se as santas palavras de Deus. Ao se viver em comunidades, vive-se das graças de Deus. Sim, a Bíblia se nos veio por estes caminhos da gente, sofrida e esperançosa por fazer novos seus dias. Esta gente em pobreza nos exige nas igrejas a despertar na estrada de Jericó a Jerusalém (veja Lucas 10,25-37 e Atos 2-6). Entre a Bíblia e a vida doída forjou-se um conluio. Nele nos abrigamos.

A olhos nus não falaríamos assim. Poderia faltar bom senso. Dizemo-lo no Espírito. Afinal, é ele quem conduz os conteúdos de Lucas 4,16-30. É nele que os caminhos vão conduzidos. Nele, Jesus vai à Galiléia (4,14-15); em sua esfera, situa-se Jesus (v.18-19); em sua unção, Jesus proclama inusitadas palavras. Repete-as em parte de Isaías, mas de modo a serem suas estrelas guias por velhos-novos trajetos. O que ele, Jesus, faz ver, já estava aí – os profetas todos já o tinham enunciado – mas agora já não pode ser ignorado. A releitura livre que Jesus faz de Isaías recupera a profecia e a mistura com a vida e seus desafios cotidianos. Este jeito de ler as Escrituras nos anima para uma metodologia que promove a leitura popular, por que se lê por trás das palavras, além das palavras. É um texto que reconforta e que abraça os pobres na leitura da Bíblia. Desta forma, é possível resgatar o vigor do texto, a partir de suas posições de ruptura com as estruturas que amarram e oprimem as pessoas.

São cinco as tarefas messiânicas, as da unção; a última é a decisiva. O que importa, é, finalmente, “o anúncio do ano da graça do Senhor” (v.19). Este ano celebra o direito de todas as pessoas aos bens sociais, em especial à terra (veja Levítico 25). Vida digna se enrama em acesso à terra. Sem terra a vida se desumaniza. A tragédia brasileira de milhões sem nada é a da terra de poucos; 500 anos de vida sem terra resultam na tristeza de nossas favelas e malocas. Deus nos dê o ano da graça! Abra portões e apodreça cercas!

Este ano da graça é a bem-aventurança suprema. Quatro detalhes o realçam: dois afloram por palavras, dois por atos, o que, em sentido bíblico, são dois lados do mesmo. Este ano da graça se ‘faz’ “evangelizando” e “proclamando”. “Pobres” são evangelizados, pois na graça sua desgraça se desfaz. Aos “cativos” será proclamada libertação! Cada um destes propósitos é mais lindo que o outro em seu afim de nova vida. E este ano da graça se ‘faz’ na “restauração da vista” e na “libertação de cativos”. Este ano da graça vale a pena, porque suas palavras são maravilhosas e suas ações libertárias são encanto. São “palavras de graça” (v.22).

Com suas palavras em prol de pobres e doentes, de mulheres e crianças a ninguém exclui; o problema é que muitos de nós preferimos um espaço exclusivo. Quanto mais as coisas forem de exclusivos, tanto menos sobrará para mulheres e homens empobrecidos. Afinal, Jesus constituiu igreja, não um clube para sócios exclusivos.

A profecia já o dizia. Por toda Bíblia o lemos. Nos salmos o rezamos. A sabedoria bíblica o incute. É que sem lugar para viúvas e oprimidos não há povo que seja de Deus. Isaías 61 é só um dos trechos a confirmá-lo. O livro de Isaías todo grita-o aos quatro ventos: criancinhas, viúvas e pobres são “meu povo” (3,15); e “o escravo” é seu sinal, presença de Deus (42,1-4; 52-53). Sim, a própria esperança tem sua raiz nas frágeis crianças, “maravilhas” do Senhor (8,16-18, veja 7,10-17; 9,1-6 e 11,1-5).

Aí se insere Isaías 61 e, em geral, a profecia. São berço das palavras de Jesus em Nazaré. Aliás, são mais que berço; são a própria casa. Sim, nem convém ficar a polemizar entre o Primeiro e o Segundo Testamento. Em ambos, a vida se vê tão plena que se descobre ser a fé que a irriga. O melhor mesmo é que a ambos abracemos com carinho, também em favor da irmanação dos povos. Aliás, nosso Lucas 4 é de todo embebido no Testamento Primeiro.

Isaías 61 constitui povo em meio ao dilaceramento, a um exílio que a todos tornara um vale de secos ossos (Ezequiel), em escravos de rostos golpeados, feridos, torturados (Isaías 40-55). Mas, é daí que emerge o povo novo, saído de escombros e canseiras (Isaías 40). Não há como não ler a este Isaías, passado pelo exílio na Babilônia, sem nossa própria história. Às vezes a olhamos; outras tantas a ignoramos. Afinal, não raro se nos torna mais aprazível viver de costas para nossas “veias abertas”; sonhar pelas Europas é mais educado. Nossas chagas são demasiadas e como que sem solução. Índias e negras ainda choram seus lamentos. Não é boa a América Latina e Caribenha. Nossas alegrias também são muitas, mas são choradas também por campos e barracos.

É-nos, pois, um dever acolher-nos ao Sião. Os v.1-2 de Isaías 61 estão nas imediações de Lucas 4,18-19; afinal, este os cita. Mas é no v.3 que se enaltece ao Sião. E esta ênfase nos ajuda, para que Lucas 4 seja realizável. Pois, bem que poderia extenuar-se em uma bela e boa intenção. Lucas 4 poderia animar-nos a um convencimento pessoal, sem um referente coletivo, sem inserção em um grupo de pessoas que, juntando-se, se reforçam e tornam viável ir à luta, como dizemos por aqui. Ao vermos o profeta referir-se a Sião, vemos que precisamos achegar-nos uns aos outros para sairmos da dor. Só se ‘vende’ quando de mãos dadas! É que esta forma de poder separa, a manjedoura ajunta. E se não ajuntar a todos nos lança em misérias sem fim. Eis a diferença entre “cinzas” e “coroas”, como o expressa o v.3. Se permanecermos sozinhos, com as melhores de nossas boas intenções, a estas só espalhamos; mas se, na graça de Deus, formos feitos “Sião”, “o óleo de alegria” se espalhará. As comunidades hão de ser tais ‘óleos de alegria’ para nossas vidas.

Enfim, estes v.3-4 também expressam um maravilhoso convite. Ora, se não os olhássemos, estaríamos perdendo uma chance ecumênica extraordinária. Afinal, usa-se a própria Bíblia para dividir. Por suas palavras uns se jogam contra os outros. O divisionismo mais arcaico é o que distingue e como que separa cristãos de judeus. Aí, faz-se necessário, implorar a Deus por novos caminhos, por trajetos ecumênicos entre igrejas e entre religiões.


Milton Schwantes
rua Camilo José 78
Vila Dom Pedro I - Ipiranga
São Paulo/SP
04125-140
milton.schwantes@metodista.br

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.