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Rio, 17/10/2007
 

É proibido sofrer! (Pr. Edson Fernando)

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É proibido sofrer!


“Porque a tristeza de Deus produz arrependimento...mas a tristeza do mundo produz a morte.” ( II Co 7:10)

Você já teve oportunidade de observar uma árvore chamada quaresmeira? Flores de fevereiro e março, as quaresmeiras nos ensinam que nem só de cores brancas e verdes vive a alma humana, mas também de lilases e roxas. Nem só de alegrias, mas também de tristezas e dores. A propósito, não é tarefa das mais fáceis empreender um ‘dedo de prosa’, mínimo que seja sobre o tema do sofrimento e da tristeza. Houve tempos em que uma pequena dose de tristeza era a matéria prima da poesia, da musica, da vida. Veja os versos do poeta Vinicius de Moraes: Assim como o oceano só é belo com o luar, assim como a canção só tem razão se se cantar, assim como uma nuvem só acontece se chover; assim como o poeta só é grande se sofrer. Pode-se dizer, com o testemunho de um bom número de musicas que ainda hoje cantamos, que a tristeza sempre foi a matéria prima do fazer poético. Quem nunca cantou : Vai alma tristonha, seu pranto depor...”. Ou ainda: “Não desanimes Deus proverá, Deus velará por ti...” Esses hinos testemunham um tempo em que a experiência da alegria e da beleza só eram possíveis a partir do reconhecimento de nossas fraquezas, nossas fragilidades na grande partitura da vida. Os tempos hoje são outros. Num projeto de vida em que as pessoas são tidas como máquinas, qualquer sombra de melancolia, de tristeza, de dor, deve ser abolida. Por uma simples razão: máquina não sente dor! E então a única coisa que resta para as pessoas que reconhecem as adversidades e dificuldades pelas quais estão passando, é afogar-se nos remédios. O curioso é que o remédio tem o efeito de aliviar as dores sem curar nossas feridas. Eu explico. Por exemplo, digamos que um de nós tenha sofrido muito com uma insônia que se manifesta todas as noites. Um amigo diz: toma remédio! Um dormonid resolve num instante o seu problema. É verdade, provavelmente ao tomar o remédio a insônia vai ceder. Mas, o problema é o seguinte: É possível que a gente tome o remédio por um tempão sem jamais se perguntar: Mas, afinal de contas, o que por que eu não estou conseguindo dormir? O que está causando a minha insônia? Ou seja, graças a Deus pelo remédio. Mas, tão importante quanto o remédio é a coragem de perguntar-se sobre as origens das nossas dificuldades, dos nossos sofrimentos, das nossas dores. Se isso não acontece, o efeito do remédio é apenas mascarar os nossos sofrimentos. E se você observar bem, é assim que as pessoas lidam com suas dores : afogando-se nos compridos. Por isso é que um dos grandes problemas do nosso tempo é exatamente a questão das drogas. Ora, um dos efeitos da droga é esse: anestesiar nossa capacidade de perceber nossas sofrimentos e crises. A droga lança a pessoa num mundo de faz de conta: Faz de conta que eu não tenho esse problema. A tendência é o sofrimento ir se tornando cada vez mais maior. O buraco vai ficando cada vez mais profundo. E tudo começa com a dificuldade de se admitir que a coisa não está bem, que há um conflito que precisa sem enfrentado.

Muitas vezes o que o discurso religioso acaba funcionando como uma espécie de droga para as pessoas. Se quando estou em dificuldades e ouço que só estou assim porque sou fraco, e o estar fraco é prova de que Deus não está contente comigo, pois quando Deus está presente toda a fraqueza se dissipa, então eu jamais aprenderei com minhas fraquezas. Ao contrário, eu vou querer evita-las e fazer de conta que não existem, pois, afinal, se Deus está presente não há fraqueza, há força e poder.

Os Salmos são um riquíssimo manancial no qual podemos ver como o povo de Deus lidava com a realidade dos seus sofrimentos: Admitindo-os, colocando-os diante de Deus, jamais mascarando-os. Confira a força do Salmo 30, do Salmo 88. Nesses Salmos, como em tantos outros a dor do salmista é expressa, é colocada pra fora, é exposta. Por uma simples razão. Porque calar-se é ver envelhecer os ossos, calar-se é não se permitir experimentar a experiência do Deus que ouve o clamor, ouve as dores do seu povo. O grito de Jesus na cruz resume a importância que a expressão sincera do sofrimento tem para a tradição vetero-testamentária: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?

O apóstolo Paulo, na segunda carta aos Coríntios 7:10, faz referência à tristeza segundo Deus. Dorothee Sölle assim interpretou esse versículo: A presença divina nunca é presença observadora: a presença divina é sempre dor ou alegria de Deus. Mas, o que distingue a tristeza divina das tristezas do mundo? pergunta o apóstolo dos gentios. Tristeza do mundo é tristeza que gira em torno de si mesma, patina sem sair do lugar. É sofrimento que paralisa no remorso, na lástima, em ficar lamuriando as faltas passadas. Nada se transforma, nada muda, tudo continua igual. Você conhece alguém assim que só fica lamuriando, lamuriando, como caminhão na subida, e não faz absolutamente nada?

Pois bem, esse é o sofrimento de quem não conhece a esperança, o futuro, por estar afogado no passado. É Tristeza e dor que matam, que corróem, que fazem adoecer. Por exemplo, o problema da anorexia (pessoas que ficam doentes pela obsessão em emagrecer): sofrimento de um corpo que morre para parecer belo. Ou a tristeza do consumo: esse mal-estar diabólico que leva do nada a lugar nenhum. A tristeza da guerra, da destruição que faz morrer a palavra e perpetua o ódio. O sofrimento e tristeza segundo Deus, porém, produzem mudança, movimento, superação, transformação, produzem vida. É sofrimento que não patina nas culpas, mas avança na responsabilidade. Tristeza de parturiente, que traz a esperança e o futuro no ventre. É tristeza que gera a sagrada ira, a santa indignação, o grito, a libertação.

Chega de fazer de conta que as dificuldades não existem. Permita-se viver a Páscoa de Jesus em sua própria vida. Todos os seres humanos queiramos ou não, acabamos passando pelo fogo purificador das crises e dificuldades. A diferença é o que fazemos com tudo isso. Da tradição bíblica aprendemos: nem o dolorismo ( o prazer na dor, quanto mais sofrimento melhor), nem o viver como se o sofrimento não existisse. Permitamo-nos ser transformados pela graça de Deus também através do reconhecimento de nossas fragilidades e dores. Pois afinal, quando somos fracos, aí somos fortes. Sem o reconhecimento e vivência de nossas sextas-feiras santas, o domingo da ressurreição perde boa parte do seu brilho.

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