IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Ecumenismo
Rio, 23/10/2007
 

Ecumenismo, sociedade e missão (Gottfried Brakemeier)

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Capítulo I.: Ecumenismo: entraves e necessidade

1. É proibido confundir o econômico e o ecumênico. Mesmo assim, existem afinidades. A privatização da fé, flagrante na atualidade, a sujeição das Igrejas às leis do mercado, a globalização dos campos de atuação eclesial e de investimento missionário são fenômenos paralelos aos conhecidos no mundo da economia. Na visão de muitos, comunidades cristãs devem ser gerenciadas em espírito empresarial, produzir lucro ou então fechar. As instituições eclesiásticas, para manter o quadro de seus membros, devem lançar mão de “marketing” e aprender a competir. Religião passou a ser mercadoria em busca de compradores. É claro que afirmações dessa natureza são perigosas. Não são retrato fiel da realidade. E no entanto, captam inegáveis dimensões. A Igreja de Jesus Cristo não deixa de ser afetada e constrangida pelo espírito da época e da sociedade em que vive.

2. Esse espírito, de momento, não favorece o ecumenismo. Coloca o “eu” acima do “nós”, o individual sobre o social, a corporação sobre a coletividade. Isto tem reflexos no relacionamento das Igrejas entre si. Depois de uma época de avanços, o ecumenismo sofre estagnação. É verdade que a maioria das Igrejas declara ser a busca da unidade visível do corpo de Cristo compromisso inalienável. Mas faltam passos corajosos em direção ao nobre objetivo. Acentua-se a particularidade em detrimento da universalidade, com sensíveis indícios de retorno ao confessionalismo. Comprovam-no as dificuldades de cooperação das Igrejas Ortodoxas no Conselho Mundial de Igrejas, as mais recentes declarações da Cúria Romana sobre a eucaristia, bem como a suspeita de muitos protestantes frente à causa ecumênica. É notório o propósito de afirmar identidades e de traçar limites. A tão esperada retomada do crescimento ecumênico se depara com novas e velhas barreiras que ameaçam frustrar as esperanças.

3. São múltiplas as causas dessa evolução. Não se permite reduzi-las a só uma. Mas cabe destaque ao relativismo, efeito colateral tanto do pluralismo quanto da cultura de mercado da sociedade dita global. A co-existência do diferente derruba tradicionais monopólios, multiplicando as possibilidades de opção no mercado das ofertas. Convicções religiosas passam a ser meras “opiniões” com normatividade apenas subjetiva. Já não existe verdade, melhor, existem tão somente verdades no plural, todas em princípio equivalentes. É claro que a onda de subjetividade desafia as Igrejas, portadoras de uma mensagem universal, inegociável, de validade absoluta. Um dos desaguadouros dessa onda é o sincretismo que mistura as verdades, jogando as diferenças na mesma panela. Entendido como imples adição de elementos díspares ou até incompatíveis, representa por sua vez uma modalidade de relativizar verdade. Sincretismo dilui identidades, apregoando a arbitrariedade em assuntos de credo. A resistência à nivelação da verdade evangélica é flagrante, por exemplo, na declaração “Dominus Iesus”, da Igreja Católico-Romana, no que, aliás, colheu aplausos por parte de muitos protestantes. O que preocupa é que tal resistência parece exigir a auto-afirmação eclesial às custas do ecumenismo com outras Igrejas irmãs. O recuo ecumênico se deve em boa medida à oposição ao relativismo desinteressado em formular normatividade.

4. O relativismo provoca a reação fundamentalista. A erosão das bases da sociedade tradicional, de sua cultura e de seus valores é respondida por fortes grupos com intolerância militante que admite como verdade somente a própria convicção. Os dissidentes são declarados incrédulos, blasfemos, filhos das trevas, e assim transformados em alvos de perseguição e extermínio. São fatos conhecidos. A armadilha fundamentalista ameaça não somente grupos marginais. Aos olhos do mundo secular, o absolutismo inerente a praticamente todas as convicções religiosas desacreditaria o fenômeno da fé como tal. Religião está sendo denunciada como raiz dos mais ferozes conflitos da história e fator de embates que solapam a segurança pública e inspiram horror na atualidade. Daí porque se recomendaria uma atitude areligiosa. Caberia adotar a postura tranquila do niilismo, longe do fanatismo dos “crentes”. Coloca-se às Igrejas a pergunta pela procedência de tal acusação, desafiando-as a demonstrar seu potencial pacificador. Será essencialmente violenta a fé cristã? Costumam ser lembradas as cruzadas e a inquisição, ou então os pecados de uma missão sob a égide do colonialismo. Em que se distingue, nesse tocante, o cristianismo do islamismo, por exemplo? Por que não consegue fazer as pazes nem mesmo entre os próprios fiéis? Não poderia ser a crise do ecumenismo indício de elementos fundamentalistas na fé cristã?

5. Vale ressaltar que o ecumenismo se oferece como alternativa tanto ao fundamentalismo quanto ao relativismo. Não pretende nem nivelar nem uniformizar. Procura o “consenso”, a diversidade reconciliada, a cooperação conjugada dos membros no mesmo corpo. Que ecumenismo exigisse a renúncia à verdade como preço da fraternidade é um trágico mal-entendido. Resultaria em irenismo barato e superficial sem condições de sustentabilidade. Não se constrói unidade resistente dessa maneira, assim como não se alcança o objetivo mediante imposição autoritária do mundo doutrinal particular de determinado grupo. Ecumenismo precisa de uma atmosfera de liberdade, de parceria engajada na busca comum de autenticidade evangélica. O amor que deve prevalecer também nos relacionamentos ecumênicos não dispensa da mútua prestação de contas sobre a base confessional de cada uma das Igrejas. Nem violência fundamentalista nem indiferença relativista prometem conduzir àquela unidade que Jesus almeja para os seus discípulos.

6. Em estranho contraste com a crise ecumênica é flagrante ser “unidade” uma das grandes urgências - e carências - da atualidade. Não o é apenas das Igrejas. Trata-se, em sentido abrangente, do pré-requisito de um mundo humano. A fragmentação da sociedade e sua polarização em grupos e segmentos rivais é fator de alto risco. Paz é um dos maiores anseios no Brail e em todo o mundo. Violência descontrolada, privatizada, organizada parece ser a forma de guerra peculiar do século XXI. Instala o terror e o permanente medo, acarretando não só o fantasma de enormes prejuízos materiais, humanos e ambientais, como também a perda das conquistas humanitárias a exemplo das liberdades cívicas, dos direitos humanos, dos valores morais.

7. O mundo globalizado assiste perplexo à proliferação dos conflitos. Até o momento, o combate às irrupções da violência privilegiou a simples contra-violência, ignorando que esta, em vez de debelar as chamas, joga lenha na fogueira. O verdadeiro antídoto seria o empenho por reconciliar inimigos, por promover a justiça, por criar comunhão entre o diferente. Disto pouco se vê e se ouve. É tarefa mais trabalhosa do que disparar foguetes “inteligentes” e jogar bombas de fabricação caseira em praça pública. A humanidade se ressenta da falta de uma nova “ordem global”, de nações mais unidas. Unidade, sempre no sentido da “comunhão”, é pressuposto de sustentabilidade, de futuro e bem estar da humanidade.

8. Seria estúpido responsabilizar o próprio processo da globalização pelas ameaças da atualidade. “Globalidade” acarretou enormes benefícios. Eliminou ou reduziu distâncias, criou informação quase que instantânea, mesclou e enriqueceu as culturas. Pergunta-se, porém, se está sendo bem conduzido. Embora fizesse crescer a proximidade, não conseguiu fomentar, em igual proporção, a solidariedade. Pelo contrário, as privatizações que acompanham a globalização e que constituem seu reverso, implantaram mundos estanques no planeta, lado a lado, ameaçados de fatal incomunicação. Num espaço de vida progressivamente menor iniciam as lutas pelos recursos minguantes (exemplo: água), pela hegemonia, pela sobrevivência. Multiculturalidade, pluralismo, competividade são fenômenos ainda não “domesticados”. Falta uma visão do que isto poderia significar sem que redundasse em agressão mútua e exclusão das parcelas sociais mais fracas. O mundo globalizado, pois, requer intenso esforço por união. Que tem isto a ver com ecumenismo?

9. Tradicionalmente ecumenismo tem sido um termo de conotação eclesiológica. Queria unir Igrejas, reconciliar diversidade, superar divisões no corpo de Cristo. Permanece tendo indiscutível validade nessa acepção. E no entanto, “ecumene” sempre lembrou em termos mais abrangentes a “terra habitada”, a orbe terrestre, o mundo de Deus. É impossível pretender a unidade da igreja sob desconsideração dos conflitos que convulsionam a sociedade, da qual ela mesma é parte. Por isto mesmo “ecumenismo” deve extrapolar a esfera estritamente eclesiástica e manifestar-se em cuidados com as enfermidades globais. É claro que o ecumenismo eclesiástico não se condiciona à paz em seu meio ambiente. Esta não é premissa da unidade cristã. Mas proibe-se separar a “paz em Cristo” da “paz na terra”, da qual fala a mensagem de Natal (Lc 2.14).

10. Isto não significa atribuir natureza “ecumênica” ao mandato das Nações Unidas. Unir os povos é legitimamente uma tarefa política, atribuição dos Estados e dos povos. Não se trata de usurpar competências. Ecumene deve permanecer sendo um termo “teológico”. Seu horizonte é o reino de Deus e sua justiça (Mt 6.33). Designa, por isto mesmo, um compromisso da fé. Mesmo assim, não há como excluir da agenda a paz entre as culturas, as religiões, as classes sociais. O mundo de Deus é um só, destinando-se à conviência pacífica dos povos e das pessoas. Na sociedade plural o macro-ecumenismo adquiriu singular relevância. Tanto em termos eclesiásticos, pois, quanto sociais, políticos e culturais, a promoção da unidade, tarefa característica do ecumenismo, requer a mais alta prioridade. Importa desarmar os antagonismos, eradicar o ódio, construir comunhão e habilitar a diversidade a conviver em paz e justiça.

11. A ampliação dos horizontes ecumênicos de modo algum remete a busca da unidade dos cristãos à margem. O empenho por aproximar as Igrejas permanece prioritária. Não terá credibilidade para defender a causa da unidade dos povos, quem se mostrar incapaz de arrumar a própria casa. E há outros motivos. A Igreja de Jesus Cristo está a caminho de nova diáspora. Cresce, em ritmo acelerado, sua condição de minoria. Ora, separadas as Igrejas serão presa fácil da conquista por parte de outras religiões que com surpreendente agressividade disputam o mercado religioso do mundo global. Seria prudente, pois, somar as forças e enfrentar unidos os impactos da nova e antiga religiosidade, bem como os da secularidade inerente ao regime de ciência e tecnologia. Afora isto, trata-se de reconhecer que o mundo não cristão costuma não distinguir entre as denominações. Debita os pecados cristãos na mesma conta ecumênica, assim como atribui possíveis méritos ao cristianismo em seu todo. Enfim seja lembrado ser a unidade um dos indeléveis atributos eclesiológicos, sem o qual a Igreja deixa de ser o que é. Por todos esses motivos importa empenhar-se prioritariamente pela união daqueles e daquelas que são portadores do nome de Jesus Cristo.

12. Por todos estes motivos cabe à Igreja, em sua qualidade de devedora de “judeus e gregos”, isto é de todo o mundo (Rm 1.14), demonstrar ser possível conjugar diversidade e unidade. Ainda que, como dito acima, devam ser distinguidos o mandato político e o ecumênico, as Igrejas estão vocacionadas a semear o espírito do ecumenismo para fazê-lo frutificar na esfera secular. O amor cristão não pode conformar-se com a miséria produzida por exploração, violência, desigualdades, nem por fanatismo religioso ou obsessão ideológica. O sofrimento humano sensibiliza a “filantropia” de Deus (Ti 3.4) que ouve o clamor da criatura e vai em seu socorro. Por isto mesmo, a Igreja de Jesus Cristo tentará “exportar” a idéia ecumênica como forma de contribuir para a construção da paz na terra.

13. Para tanto, porém, importa desencalhar o barco ecumênico e dar-lhe novo impulso. Perguntamos: Como se explica o paradoxo da incontestável necessidade do ecumenismo de um lado, e da lentidão com que o projeto avança, de outro? Pelo que tudo indica, não falta a boa vontade. Continua prevalecendo, isto sim, um romantismo ecumênico, refém de sonhos irreais, travando a caminhada. A seguir apresentaremos um diagnóstico talvez inusitado, mas, assim esperamos, realista das divisões da cristandade. Dele vamos deduzir algumas propostas para a ação ecumênica no futuro, não por último com vistas à atuação do CONIC. Não são receitas prontas, antes subsídios para a discussão.

Capítulo II: “Unidade” – um conceito a clarear

1. O maior problema do movimento ecumênico, presente desde os inícios mas agravado pela pluralização da sociedade moderna, consiste na falta de uma visão consensual do objetivo a perseguir. Existe unanimidade apenas no sentido de que deva ser a “unidade”, e isto em forma visível. No mais prevalece incerteza, respectivamente a colisão de idéias. Falta uma utopia ecumênica. Em outros termos, o barco ecumênico não visualiza o porto de destino. Porventura, será unidade um conceito estrutural, doutrinal ou simplesmente espiritual? No primeiro caso, unidade exige a fusão das instituições eclesiásticas, no segundo basta o entendimento teológico, enquanto no terceiro a mera fraternidade cristã seria suficiente. Portanto, como definir a meta do esforço ecumênico?

2. A conceituação da unidade em termos estruturais e institucionais tem exercido e ainda exerce forte influxo. Tem sido privilegiada pela Igreja Católico-Romana, como o mostra a expressão da “reintegração da unidade”, usada como título do decreto sobre o ecumenismo do Concílio Vaticano II. Manifesta-se nele, embora de modo latente, a concepção tradicional que espera pelo retorno dos irmãos e das irmãs separadas ao seio da Igreja mãe. Mas também o modelo da “união orgânica”, há tempos atrás em discussão no CMI, pensa em moldes semelhantes. Conforme esta proposta, as denominações deveriam sumir para dar espaço a um novo corpo, ou seja uma nova corporação. O objetivo do ecumenismo consistiria na criação de uma mega-instituição, global, incorporando toda a cristandade.

3. A idéia não morreu, mas perdeu força. Pretende algo fictício. Implica num ecumenismo “conversionista”, exigindo que alguém se dobre diante da autoridade de outro e que renuncie à sua identidade. Isto é sentido como ato de violência a que as Igrejas e seus fiéis se negam. Ademais iria, sem dúvida alguma, redundar em deplorável empobrecimento espiritual O caminho à unidade não é este. É uma ilusão achar que a Igreja Católica vai tornar-se protestante, ou que o protestantismo vai tornar-se católico-romano ou ortodoxo, ou então que seja possível elaborar um modelo eclesiológico totalmente novo. Permanece a pergunta, se unidade eclesial pode, por completo, abstrair das estruturas. O movimento ecumênico sempre pretendia mais do que uma simples federação de Igrejas, autônomas cada qual. Pois, como se pode tornar visível a unidade sem reflexos institucionais?

4. A fim de flexibilizar a discussão prefere-se, como se sabe, falar em comunhão em lugar de unidade. E com efeito, comunhão deixa espaço para diversidade mesmo estrutural. Diversidade é até mesmo condição de autêntica comunhão, como o mostra a figura do corpo e dos membros em 1 Co 12. Parece que as implicações dessa mudança de conceito ainda não foram devidamente esgotadas. O assunto continua sendo intensamente discutido. E no entanto, também comunhão permanece um projeto vago, enquanto não definido. Comunhão não substitui unidade. Descreve antes uma determinada forma da mesma a ser concretizada para ser inequívoca. Até mesmo existem diversos graus de comunhão, podendo ser esta ora mais intensa, ora mais solta. Numa família sempre existem os parentes mais próximos e os mais distantes. Então, há condições a cumprir para haver comunhão. A história do CMI oferece subsídios para tanto. Mas eles ainda não são consensuais. E, sobretudo, serão “realistas”, viáveis, praticáveis? O problema da unidade permanece na agenda.

5. A dificuldade de acordos nessa matéria prende-se, pelo que nos parece, à disparidade dos critérios de unidade existentes nas Igrejas. O que por um lado une, exclui de outro, sendo que na cristandade podem ser identificados vários desses fatores. Eles são incompatíveis entre si e classificam o povo cristão em essencialmente quatro tipos. Apresentamo-los a seguir em sequência puramente numérica.

a. O primeiro é representado pela Igreja Católico-Romana. Seu critério de unidade é o ministério episcopal encabeçado pelo o bispo de Roma, sucessor de Pedro. A estrutura hierárquica faz parte do “esse” (o ser) da Igreja, não apenas de seu “bene esse” (do bem estar). Sem papa não existe Igreja. É uma estrutura “de iure divino”, decorrente não de mera sucessão apostólica. A Igreja Anglicana se sabe igualmente nesta sucessão, bem como o episcopado luterano da Escandinávia. Mesmo assim, o ministério dessas Igrejas não goza do reconhecimento oficial por parte de Roma. Isto porque o primado papal implica a reivindicação do magistério infalível e da jurisdição universal. Sob sua tutela, a Igreja Católico-Romana pode tolerar admirável variedade de crenças e de práticas religiosas. Mas ela é categórica em excluir quem, de alguma forma, atentar contra a autoridade do pontífice romano.

b. O princípio de unidade das Igrejas Protestantes é a pura doutrina. É no consenso nessa matéria, incluindo a administração dos sacramentos, em que se alicerça a unidade eclesial. À parte disso, admite-se grande liberdade em questões estruturais. Trata-se, sem dúvida, de um critério mais complexo do que o da hierarquia. Pois, quando será alcançado o grau de consentimento que permite a comunhão eclesial? O critério conduziu não raro a forte rigidez dogmática, provocando divisões internas no protestantismo. Certamente, o que se pretende é algo muito legítimo, a saber autenticidade evangélica. Mas a suspeita de desvio doutrinal, provocada pela insistência na pureza da fé, pode desenvolver considerável força excludente.

c. Nas Igrejas Ortodoxas, por sua vez, prevalece o critério da “tradição” de que elas mesmas se sabem guardiães. É pelo retorno comum à veneranda tradição apostólica que restabelecer-se-ia a unidade, o que, no fundo, significa adesão à maneira ortodoxa de ser Igreja. A idéia de uma paridade entre as confissões é rejeitada.. A Igreja de Jesus Cristo coincide essencialmente com ela, a Igreja Ortodoxa, sendo que ecumenismo consiste no testemunho da riqueza da fé que lhe foi confiada. O cristianismo ortodoxo não necessita de uma instância jurisdicional central. O patriarca ecumênico com sede em Istambul é apenas “primus inter pares” (o primeiro entre outros iguais). Confirma-se que o que une a Igreja é o sacro patrimônio da tradição milenar.

d. Um quarto paradigma de cristianismo é constituído pelo Pentecostalismo. Ousamos afirmar não se tratar nesse ramo da família cristã de uma variante protestante, e, sim, de uma expressão própria. Ao pentecostalismo não interessa nem a estrutura nem mesmo a doutrina ou a tradição. O importante é o “Batismo com o Espírito Santo”, isto é uma experiência mística. Outros aspectos certamente não faltam, mas são secundários. É este também o critério da unidade. Pertence à Igreja de Jesus Cristo, quem foi tocado pelo Espírito. Os outros estão fora, são estrangeiros. Unidade se establece por “afinidade carismática” e se baseia numa demonstração de poder do Espírito Santo.

6. A esquematização é artificial. Ela não reproduz o quadro todo. E no entanto, são estes os principais critérios que comandam a busca da unidade eclesial e que explicam os atuais impasses ecumênicos. Para tanto apenas um exemplo: A “Declaração Conjunta sobre a Justificação”, assinada em 1999 entre a Igreja Católica e as Igrejas Luteranas da Federação Luterana Mundial surtiu efeitos institucionais extremamente modestos. Continua proibida a intercomunhão e até mesmo a hospitalidade eucarística, salvo poucas exceções. Isto porque a referida Declaração tinha expressamente excluído a questão eclesiológica. Consensos doutrinais entre protestantes e católicos permanecem ineficientes, enquanto não reconhecido o privilégio do sucessor de Pedro.

7. Os critérios de unidade das Igrejas, pois, respondem pelo exclusivismo das instituições, responsável pela qualificação das Igrejas parceiras, portanto dos outros, como sendo “portadoras de deficiências” (“defectus”). É este um juízo recíproco. Sempre falta alguma coisa: Ou a legitimidade do ministério; ou a manifestação do Espírito, ou a correta doutrina, ou então fidelidade à tradição. Seja anotado, que estes mesmos critérios são encontrados internamente nas Igrejas. Postura hierárquica, dogmatismo tradicional, ou então religiosidade carismática, preconizada até mesmo como “matriz religiosa brasileira”, de modo algum são estranhos de Igreja luterana, causando às vezes fortes tensões. Nas outras Igrejas se registra fenômeno análogo. Volta a confirmar-se que ecumenismo não permite ser limitado às relações externas das Igrejas. Também internamente há pluralidade a ser trabalhada para impedir a desintegração. Mas, como avançar?

8. A primeira exigência nos parece consistir numa reavaliação dos exclusivismos. Em princípio, não são moralmente condenáveis nem motivo de resignação. Pelo contrário, podem assinalar aquela firmeza de convicção que é exigida de todo verdadeiro diálogo. Em assuntos de fé, posição dúbia, indefinida, ambígua perde a credibilidade. Não só as denominações cristãs, todas as religiões são exclusivistas. Se não fossem, seriam desinteressantes. Realismo ecumênico há de admitir ser irreal a esperança pela revisão dos critérios de unidade das Igrejas. Eles são definitivos. Os luteranos não vão re-escrever a “Confissãο de Augsburgo” nem os católicos corrigir os cânones de seus Concílios. Existem pelo menos quatro paradigmas cristãos, estanques, com conceituação diferente de unidade. Pode-se deplorá-lo. Mas a aceitação previne a frustração. O ecumenismo deverá conviver com essa realidade.

9. O que se deve exigir, isto sim, é que os exclusivismos não estejam fechados, e, sim, abertos. Isto em nome de Jesus Cristo que convocou “discípulos”, cuja formatura acontece somente no juízo final. Enquanto vivermos na carne (Gl 2.20) não estamos dispensados da aprendizagem. Trata-se de mais outra condição do bom diálogo. Quem resiste a ouvir os argumentos do parceiro e à possibilidade de eventualmente ser por eles enriquecido ou questionado, está de antemão desqualificado. Transformou o diálogo em monólogo e enveredou pela via “fundamentalista”. A disposição para a aprendizagem ecumênica, o intercâmbio de dons, o conhecimento mútuo são premissas indispensáveis para o sucesso na busca da unidade.

10. Tal perspectiva implica o redesenho da tarefa do ecumenismo. Certamente não o revoluciona. Pois o objetivo último continua sendo o mesmo, que é a unidade. Mas essa unidade será vista em termos algo diferentes. Deixará de ser obrigada a extinguir identidades, a apagar exclusividade, a pretender a fusão das diferenças. Não vai exigir que a mão se torne pé, ou vice-versa. Antes procurará restabelecer a cooperação sadia dos membros no mesmo corpo. Atrevemo-nos a dizer que tal concepção a ser explicitada a seguir, possui relevância para qualquer comunhão humana desde que orientada em sustentabilidade e paz. Trata-se de desenvolver uma visão de “unidade do diferente”, já não de “unidade do igual”. Esta última será ou limitada ou violenta. Vai incorporar somente o que em si já é idêntico, ou então terá que proceder a brutal nivelação de particularidades. Terá que igualar para unir. Não é este o conceito de unidade do Novo Testamento. É claro que nem todas as diferenças cabem na unidade cristã. Terá que se examinar criteriosamente as cifras que combinam com o denominador comum. Importa distinguir entre as diferenças a eliminar e aquelas a conjugar. De qualquer maneira, a unidade em Cristo admite alto grau de pluralidade, resultando daí as diretrizes mestras para o ecumenismo.

Capítulo III: Convivência plural – a urgência da paz
1. Cristãos e cristãs estão unidos pelo uso da Escritura, pelo credo, pelo batismo, pela confissão do senhorio de Jesus Cristo, pela invocação do Espírito Santo. Fala-se num consenso fundamental, básico, constitutivo do povo cristão. Antes de sermos protestantes, católicos ou pentecostais somos cristãos. Existe um vínculo implícito na fé em Jesus Cristo, uma comunhão “apriori”, uma unidade cristã “original”. Em épocas de estagnação ecumênica recomenda-se a re-valorização deste consenso que está na raiz das Igrejas cristãs. Antes de falar das nossas diferenças, pois, deveríamos falar do que nos é comum, ou seja da unidade que nos foi dada “em Cristo”. Isto inclui a leitura e a interpretação da Bíblia, o testemunho da fé, o compromisso do amor em sociedade plural, secular, multicultural. As Igrejas, a despeito das suas diferenças, constituem uma grande família, de irmãos e irmãs, devendo apresentar-se ao grande público exatamente assim (Ef 2.19). Juntas representam o que se chama “cristianismo”. Assim sendo, pode-se descrever ecumenismo como o esforço por lembrar às Igrejas seu parentesco e o compromisso de dele tirar as devidas consequências.

2. Este mandato implica o empenho por oportunizar o que se poderia chamar “experiências familiares”. Cabe ao ecumenismo fortalecer a consciência dos laços que unem os cristãos em meio à variação das expressões eclesiais. Exemplifica-o a oração conjunta pela unidade dos cristãos. Por ela, os fiéis descobrem sua solidariedade perante e em Jesus Cristo. Veem-se congregados em uma só comunidade, adorando o mesmo Deus e esperando dele o socorro nas lides da vida. São documentações de “unidade visível” do povo cristão, evidenciando ser o conteúdo da prece já parcialmente realidade. Onde dois ou três se reúnem em nome de Jesus Cristo, têm a promessa de ele estar no meio deles (Mt 18.20). A unidade do povo cristão se concretiza ali. Parece-nos haver necessidade de outras celebrações conjuntas, tematizando não somente a unidade cristã, e sim, em termos abrangentes as dores do mundo. Juntemos o nosso clamor, a nossa gratidão, a nossa confissão. Embora ainda não estejamos oficialmente preparados para concelebrar a ceia do Senhor, a liturgia comum é forte demonstração de unidade.

3. O quanto é relevante o referido “consenso fundamental” pode ser facilmente depreendido da comparação do diálogo interconfessional com o interreligioso. Cristãos estão unidos por um universo conceptual comum. Falam uma só “linguagem”, com um mesmo alfabeto e uma só gramática religiosa. Nem sempre dizem a mesma coisa. Usam idiomas diferentes e se apresensentam em diversos paradigmas denominacionais. São fruto de processos históricos específicos, de heranças culturais e de fatores contextuais. E no entanto, as Igrejas têm plenas condições de se comunicar e de se entender. A “matriz religiosa cristã”, se comparada com outras “matrizes” de natureza não-cristã, possui inconfundível perfil. Isto apesar da pluralidade de suas manifestações históricas ontem e hoje. O cristianismo sempre se apresentou multiforme, e, todavia, centrado naquele a quem confessa “Senhor”. Cabe ao ecumenismo, nesta ótica, promover “exercícios na linguagem comum” com o intuito de aprofundar o entendimento mútuo.

4. Além das celebrações ecumênicas e dos exercícios linguísticos sejam ressaltados os projetos de ação, a diaconia cristã, a práxis conjunta. É sabido que também em assuntos de ética há divergências entre as Igrejas. Dizer que a doutrina divide, enquanto a ação une, é sinal de imperdoável ingenuidade. Entretanto, também na práxis existe algo como um consenso básico que possibilita a ação comum. Lembro a dignidade humana, o amor ao próximo, o respeito à criação como exemplos de princípios cristãos obrigatórios. Diante da magnitude das ameaças que pairam sobre a humanidade é dever das Igrejas conjugar seus esforços na tentativa de prevenir, de sanar, de mobilizar socorro. Buscarão aliados nessa tarefa também entre não cristãos, sempre com o objetivo de “humanizar” a sociedade, de livrá-la do mal, de promover o bem comum. Ecumenismo é fazer o que une, o que cura, o que serve à paz. Para tanto, o mutirão das Igrejas é fundamental. A família cristã deve ao mundo não só o testemunho da fé como também o testemunho do amor.

5. Assim como a própria Igreja de Jesus Cristo, assim também o ecumenismo se alimenta de duas fontes. A primeira é a tradição. É a notícia daquele evento fundante que está em sua origem, a revelação de Deus em Jesus Cristo, a constituição da comunidade no dia de Pentecoste. A fim de tomar consciência de sua identidade, a Igreja necessita do olhar retrospectivo, da leitura da Bíblia, do estudo de sua história. A outra fonte é a vocação, ou seja o chamado do Espírito Santo hoje, que envia a Igreja ao mundo para anunciar-lhe o evangelho e preparar a vinda do reino. Ela exige o olhar prospectivo, a leitura dos sinais dos tempos e dos lugares, a percepção da missão cristã. Tanto a tradição quanto a vocação são essenciais. Não há como “optar”. Mas convém recordar o mandato do povo de Deus em sua totalidade. Além de uma missão particular de cada membro e de cada Igreja, existe uma missão conjunta da família cristã. Na sociedade plural, essa missão adquiriu particular relevância. Pode-se falar de uma “dívida ecumênica” das Igrejas à humanidade a ser saldada conjuntamente. A insistência nessa verdade será outro grande promotor de unidade.

6. O até aqui exposto sugere que, no afã de unir a família cristã em comunhão de fé e práxis, o objetivo imediato já não deverá ser o acordo doutrinal, nem a adesão a determinado estilo de piedade e muito menos a fusão estrutural. Antes de mais nada será necessário construir confiança. Desconfiança é um dos mais fortes bloqueios da unidade e está na raiz do preconceito. Eis porque, com muita propriedade, exige-se do ecumenismo uma hermenêutica da confiança. Sua premissa é o conhecimento mútuo. Ele vai dificultar a condenação rápida e a leviana exclusão do parceiro. Talvez ele leve à constatação da presença de Cristo também em outras denominações.

7. Isto não significa que a meta de alcançar consensos deva ser abandonada. Muito pelo contrário, ecumenismo está comprometido a ampliar e aprofundar o consenso básico. Tratará de dar coesão ao discurso e à prática cristãs, sempre no intento de unir o testemunho. E no entanto, enquanto empenhado na criação de relações de confiança, poderá fazê-lo sem pressa e afobação. Unidade precisa de tempo para crescer, sendo a confiança o solo indispensável. Ademais, a construção de solidariedade e compreensão promove o que chamamos “aprendizagem ecumênica”. Outros receberam igualmente dons a serem compartilhados. Enfim, confiança impede uma identidade eclesial tão-somente negativa, conseguida pela demonização do outro. Mera oposição não explica quem nós somos. Assim também a unidade. Ela precisa estar ancorada numa posição. Confiança desincumbe de polêmica estéril e aproxima familiares até mesmo dissidentes.

8. Comunhão familiar será tanto mais forte quanto maior for sua capacidade de resolver conflitos. Assim também na família cristã. Não se permite a cristãos o arbítrio na fé e no modo de ser. Eis porque é preciso insistir no diálogo sobre os assuntos controvertidos. Existe uma responsabilidade universal, coletiva, ecumênica do cristianismo perante o tribunal de Jesus Cristo e perante o foro do mundo, responsabilidade esta que requer o acompanhamento crítico e auto-crítico da “conduta eclesial”. Nem sempre divergência de posição será calamidade ou vexame. Ao contrário, a disposição para o exame recíproco, incluindo a possibilidade de “aggiornamento” e de mudanças de percurso acaba aumentando a credibilidade. Ecumenismo respeitará identidades, mas não sem deixar de submetê-las ao teste da autenticidade cristã. É possível que não cheguemos ao pleno acordo numa série de questões. Isto não será prejuízo, enquanto os posicionamentos buscarem o sólido embasamento evangélico e resultarem da seriedade e honestidade dos parceiros. De qualquer forma, o anátema deverá ser reservado a casos extremos. Será legítimo apenas como “ultima ratio”.

9. Com o exposto acima não estão esgotadas as perspectivas de ação ecumênica no atual momento. Não pretendemos ser exaustivos. Afirmamos não haver razões para a resignação por sobre os exclusivismos denominacionais que sugerem estagnação. Pelo contrário, a descoberta dos mesmos pode libertar de ilusões e aprofundar o conceito de comunhão. Unidade que seja mais do que simples uniformidade sempre terá natureza plural. Saberá conjugar o diferente sem descaracterizá-lo. Compatibiliza antagonismos e os capacita para a complementariedade. Exclusivismo vai então transformar-se em “especificidade” ou seja em particularidade confessional, colocada a serviço do todo. Em tal perspectiva a figura do corpo e dos membros se aplica não só à Igreja e às pessoas que a compõem. Às próprias instituições eclesiásticas deverá ser atribuída a qualidade de membros no corpo maior de Jesus Cristo. São chamadas a constituir uma “cooperativa” universal, da qual Jesus Cristo é a cabeça e que representa em termos exatos a ecumene cristã.

10. Também o mundo secular necessita de uma nova proposta de “unidade na pluralidade”. De outra forma não terá fôlego para superar os graves conflitos que ameaçam sua sobrevivência. Voltamos a dizer que o ecumenismo cristão deverá ter analogia política, sim, econômica e cultural a fim de garantir sustentabilidade à sociedade global. É o “sonho da paz” (Marcelo Barros) que está em jogo. O projeto vai exigir uma nova mentalidade do mundo global, um novo espírito, uma nova proposta de convívio humano. Se a humanidade terá ou não as energias para tanto, é a angustiante incógnita. Unidade na diversidade reconciliada une tolerância com clareza de posição, concede espaço para o diferente sem necessariamente com ele concordar, parte da premissa de uma “comunhão original” que proibe a “excomunhão” preconceitosa, a violação do direito humano, a usurpação dos recursos de vida. Somente o crime justificará a exclusão. Mas o diferente não é, em princípio, criminoso. Não permite desde já a demonização. Cabe, pois, investir na habilitação à conviência plural, bem como em sua estruturação através das fronteiras. As Igrejas, assim entendemos, são chamadas a cooperar nesta imensa tarefa, não por último através de seu próprio exemplo.

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